A potência da abstração

Taciana Barros, ou simplesmente Tacci, chegou cheia de ideias. Contava de suas emoções e de como elas a arrebatavam. Engajava-se nas palavras, suas e dos outros. As questões se multiplicavam e a escrita se potencializava. Eis que de repente, no nosso laboratório de escrita Viscerall, surge esse texto. Intenso, como as verdades indigestas. Poético, como a terra escondida debaixo do asfalto.

Os homens de Picasso

Os primeiros raios de sol abriam cortinas de luz entre as copas que me abrigavam. Senti seu toque aveludado em meu rosto como uma mãe toca o rosto de seu filho dizendo bom dia. Espreguicei em minha cama móvel, dura, mas que me acolhe a cada noite fria. Não reclamo. Agradeço. Fui eu quem me coloquei nesta posição. Não por vontade própria, mas por consequência dos meus atos impensados. Antes de agradecer, eu era como eles. Exatamente igual. Usava todas as minhas artimanhas mundanas para me dar bem, para ser o oposto do que sou hoje. Vestia máscaras imperceptíveis a todos e a mim mesmo. Fazia parte do rebanho com cheiro de melaço, mas a carne dura. Há dez anos atrás era um executivo padrão: ambicioso e prepotente. Achava que sabia mais que todos ao meu redor, tinha tanta arrogância que me colocava na posição de Deus, do Supremo, do que sabe tudo e é onipresente…como me ceguei… Era jovem, tinha meus trinta e poucos anos, uma vida dentro dos padrões, trabalho, dinheiro, posses, mulheres e filhos. O poder me buscava a todo momento. A luxúria também. Na verdade, todos os sete me envolviam numa fumaça queimada de perversidade. Já fui a pessoa que hoje me trata da mesma maneira. Já fui… Quando me levanto do meu quarto de pedras portuguesas e paredes de chapisco encardido, ouço um rangido de trilho e sinto o cheiro mais agradável da manhã. Ela sai e vem em minha direção. Todos os dias. Com seus passos pesados, pés apontados em direções opostas, apoiados em sapatos macios e confortáveis que envolvem seus pés, como se fizessem parte de seu corpo, meias grossas, cobrindo suas pernas fortes, avental por cima da saia, corpo de mulher magoada, resiliente, que se abala, mas não se entrega. Sinto seu aroma de trigo. Ela estende seus braços e, ao mesmo tempo em que me dá a fonte de nutrição para o corpo, também acalenta a minha alma com um sorriso materno.

Nunca me olha nos olhos, abaixa-os para não ter que sentir as dores de quem é sensível. Agradeço e me sento na cadeira que construí de restos de bambu e palha caídos de um terreno abandonado e ali mesmo vou me sentindo parte do mundo novamente. Sou andarilho. Gosto de poder ver a realidade por vários ângulos, mas sempre volto a dormir no mesmo lugar. É lá que me sinto abrigado e seguro. A cada dia sinto o mundo congelando aos poucos, criando camadas sólidas, cobrindo a tez do rebanho, lentamente penetrando em suas carnes, amornando o sangue até dos corações mais quentes. A cada passo que dou, o rebanho muda de rumo. Eles fingem que não me enxergam. Entendo. Também já fui um deles. Hora de me nutrir novamente. Sinto onde posso pisar, mas, mesmo assim, todos me sentem e o tempo fica mais denso. Parece que estou atravessando o vácuo. Uma muralha vem em minha direção. Já não vejo mais nada. Breu. Sigo meu caminho com um sentimento de que este dia se porta como um menino raivoso, aquele que chuta seus pais, bate na cara e morde para demonstrar sua raiva incompreendida. Sigo andarilho, todas as entradas se tornam saídas pra mim. Descanso meus pés triturados em uma esquina. Ouço passos em minha direção, como se estivessem pregando martelos. Percebo um vulto harmônico, pernas finas envoltas em calças de alfaiataria, o corpo delineado em um suéter de marca. Conheço algumas. Já as consumi sem consciência. Sinto um aroma de jasmim. Levanto humildemente o resto da minha dignidade e vejo uma mão estendida com um pacote morno lindamente enlaçado com barbante e um cheiro de esperança flutua pelas minhas narinas. Percebo sua feição. Metade caridosa, metade julgadora. Abaixo meu rosto em sinal de agradecimento e humildade. Ouço um “Fica com Deus” e o som dos martelos no chão se distanciando. Enquanto trago a esperança pra dentro, um barulho vem chegando como aviso de perigo.

Um rangido constante vai ficando cada vez mais alto. Paro de me alimentar e levanto o rosto. Não tinha que levantar meu rosto naquele dia. Sentia que não era um bom sinal. Fui içado por um guindaste de ferro velho, um homem e uma mulher com a máscara da dureza estampada em suas faces, cobertas por chapéus de imposição. Me levam em direção ao abatedouro móvel. Olho de canto de olho para os lados e presencio a indiferença da maioria e a indignação dos poucos despertos. Uma mulher se aproxima e profere seu discurso de humanidade, mas de nada adianta. Como disse, são poucos os que vão em direção contrária ao abismo. Tento agradecer àquele olhar de compaixão. Tampam minha visão com seus corpos de concreto. Entro na jaula. Vejo uma criança que sentiu minha dor. Uma mãe que não. Ela tira a criança da minha direção. Vejo um senhor levantando sua bengala em direção àquelas estátuas de concreto, agradeço com o olhar. Ele me sorri um sorriso de tentativa frustrada. Vejo um jovem com vestes confortáveis conversando com as estátuas, tentando escavar com seu pincel a brita condensada e encontrar, lá dentro, o mineral puro, mas de nada adianta. Levanto o lado direito dos meus lábios em sinal de agradecimento. Que bom poder presenciar um fio de luz na obscuridão. Chego a um castelo de destroços, cheirando a necessidades primitivas. Um espaço para “abrigar” quem não tem “abrigo”. Vejo carcaças humanas se arrastando sem direção. Me fere os olhos da alma. Tentam me convencer a ficar como se fossem anjos. Vejo pessoas consumidas por seus demônios internos. Saio rapidamente, tentando me esquivar das carcaças e me equilibrar em minha fraqueza. Volto assustado, desesperançado, ao lugar onde me acolho. Já não me sinto mais seguro. Aquela luz da manhã já tinha ido embora levando toda a leveza de um momento feliz. A lua me fita. Os aromas já não mais existem. Agora são cheiros de frituras de óleos usados. Deito-me, fecho meus olhos e já não mais existo.

Taciana Barros

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