Precisamos falar de Lúcia Murat

Por Manuela Buk

O breve diálogo que inspirou esse texto:

  • Você sabe quem é a Lúcia Murat?
  • Não… Nunca ouvi falar.
  • É uma cineasta brasileira, dá uma olhada nela. Ela está sendo homenageada agora, no festival Cabíria de cinema
  • Entendi, vou dar uma olhada. Engraçado, pensando agora, acho que eu não consigo lembrar de nenhuma diretora brasileira que eu conheça de nome. Preciso resolver isso.

Lúcia Murat. Coragem atrás das câmeras.

            A cineasta brasileira, filha de um médico ligado à saúde pública, nasceu no Rio de Janeiro, em 1948, e iniciou a sua jornada dentro do movimento político estudantil quando entrou na faculdade de economia, em 1967, um ano antes da edição do Ato Institucional 5 (AI-5), que decretou a suspensão dos direitos políticos dos cidadãos considerados “subversivos”. Tal ato é compreendido como o evento institucional que possibilitou ao regime ditatorial perpetuar a opressão e práticas extremamente violentas.

Participante ativa da União Nacional dos Estudantes (UNE), defensora de valores democráticos, Lúcia estava incluída naqueles considerados pelo governo como “subversivos”. Entrou na clandestinidade,  integrou o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e aos 22 anos de idade foi presa e levada ao DOI-Codi, na rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro. As atrocidades cometidas nos porões do DOI-Codi, marcaram não só a vida de Lúcia, mas deixaram uma mancha sangrenta na história do Brasil. Os crimes, assassinatos e torturas que ali aconteceram, só viriam à luz da sociedade vinte anos depois num movimento realizado pela Comissão Nacional da Verdade, colegiado que buscou investigar as graves violações de direitos humanos ocorridas na ditadura militar.

            Lúcia saiu do cárcere em 1974 e até ser anistiada, foi processada pelo Estado Brasileiro por suas atividades como militante. Passou então a escrever artigos para periódicos como o Jornal do Brasil e as revistas Opinião e Movimento. Nesses anos, também foi editora-chefe do jornal da manchete e diretora de programas de documentários para a TV Educativa e Bandeirantes.

No final da década de 80, com a retomada democrática, lançou o seu primeiro longa-metragem, o documentário Que bom te ver viva (1989) que intercala depoimentos de ex-presas políticas da ditadura com monólogos da atriz Irene Ravache, e aborda, irreverentemente, o tema da tortura sexual. Por vezes, a personagem de Irene Ravache encara a câmera e se dirige ao espectador de maneira honesta e aberta, causando  o desconforto e a vergonha causada pela mácula explícita da tortura.

Ao atuar como diretora, produtora e roteirista, Lúcia Murat revisita os porões da dor e faz da denúncia  uma forma primordial de justiça e resistência. Entre muitos prêmios, o longa foi escolhido melhor filme do Júri Oficial, do Júri Popular e da Crítica no Festival de Brasília de 1989, e revelou uma cineasta dedicada a temas políticos e femininos, característica fundamental de muitos de seus trabalhos.

            Entre os mais recentes, o longa Ana.Sem título foi recém-lançado,em 2020 que, assim como outros títulos da autora, está em exibição no festival Cabíria de Cinema que,neste ano, homenageia a premiada cineasta.

Muito prazer, Lúcia.

            Após fazer essa pesquisa sobre a cineasta, resolvi assistir o longa-metragem, aqui já caracterizado, o documentário “Que bom te ver viva”. Curiosamente, meu primeiro pensamento frente ao filme disponibilizado no Youtube foi: “Bem, um filme de 1989, será que não está um pouco ultrapassado?”. Na era pós-moderna, caracterizada pela informação desenfreada e o culto a imagem, tudo o que é antigo causa alguma resistência, e aquilo que oferece um conteúdo passivo, curto e leve é enaltecido. Este pensamento que tive, apesar de infeliz, não foi ingênuo, mas sim característico e revelador do tipo da geração que integro. Felizmente, afastei tal bobagem e embarquei na experiência cinematográfica. Encantei-me pela montagem e pelo roteiro do longa, que, como já indicado mais acima, apresentava diálogos e reflexões extremamente relevantes e emocionantes.

            Então me questionei: ora, como eu ainda não conhecia Lúcia Murat? Liguei para minha mãe, que também não a conhecia, questionei alguns amigos inteligentes (que também não faziam ideia) e, tristemente, também ouvi uma negativa de meu irmão e de uma grande amiga, ambos formados em audiovisual. Não, ninguém conhecia Lúcia Murat assim de nome. Foi decepcionante descobrir que tal ignorância não era só minha.

            Com longas-metragens internacionalmente conhecidos e premiados, participações importantes na memória da ditadura, habilidades ímpares de roteiro e produção cinematográfica, porque desconhecemos o nome dessa mulher tão importante para o cinema e para a nossa história?

Pensando com mais profundidade, uma ex-militante da luta armada, que depôs e expôs as torturas que sofreu pelo Estado Brasileiro, produtora e reconhecida na árdua área do cinema brasileiro, que até hoje luta pelo direito das minorias, deve ser uma personalidade que incomoda muita gente que se acomoda. Em um contexto em que o presidente eleito já elevou em rede nacional um dos maiores nomes da tortura, o coronel Ustra, não me parece que seja interessante para o sistema que falemos dela.

            Talvez, se sua palavra se espalhasse, mais mulheres se sentiriam inspiradas a adentrar o cinema e compartilhar suas histórias e visões. Talvez, se seus filmes se propagassem, menos pessoas ficariam inclinadas a qualquer saudosismo dos tempos do regime militar. Talvez, a liberdade democrática e a liberdade de expressão seriam mais valorizadas. Talvez.

            Hoje, é inegável que nosso país passa por tempos obscuros, onde cresce a morte, a doença, o desemprego, a fome e a miséria. Fazer, no presente, uma resistência à ideologia que desrespeita abertamente os direitos humanos, também é retornar ao passado, para ensaiar um futuro em que não repitamos os mesmos erros, as mesmas dores, as mesmas passividades.

            Um país sem memória também é um país sem futuro. Falar de Lúcia Murat, consumir seu trabalho, homenagear sua contribuição para a cultura e a justiça no país, é um passo importante em um processo que ainda é fraco no país: aprender com a história, priorizar a memória. O Festival Cabíria teve essa atitude.

“Em reconhecimento à sua notável contribuição para o cinema brasileiro, o Cabíria Festival celebra as quase quatro décadas de carreira de Lucia Murat. Uma homenagem aos seus filmes brilhantes e à cineasta — inspiração de várias gerações de mulheres do audiovisual.(…). Não pela fetichização do heroísmo dos militantes, nem da violência com a qual os opositores ao sistema opressor eram tratados, mas por sua capacidade cinematográfica de honrar memórias, promover denúncias e renovar pontos de vista da história, um convite ao senso crítico.”

Este trecho foi retirado da página do Festival, do evento que aconteceu na segunda semana de outubro deste ano (ver link abaixo).

Viva Lúcia Murat!

Links relevantes:

O longa metragem “Que Bom te ver viva”, disponível no youtube:

A página oficial do Festival Cabíria, onde o usuário pode encontrar a programação de 2021 e os links oficiais

https://cabiria.com.br/festival/mostra-homenagem/

O depoimento de Lúcia Murat na comissão da verdade:

O atual presidente Jair Bolsonaro homenageando o General torturador Ustra, na votação do impeachment de 2016 da presidente Dilma Rousseff:

Da Flip para as nossas cabeceiras

Manuela Buk de Araujo

Se você é do tipo da pessoa ligada em literatura, cultura, história ou turismo, já deve ter ouvido falar da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP. Realizada anualmente no charmoso centro de Paraty, cidade histórica com ares rústicos e descontraídos, o evento é fundamental para a promoção da livre circulação de literatura. São cinco dias de festividades com mesas, debates, shows, oficinas, possibilitando, elegantemente, o encontro democrático entre leitores e escritores.

Um relevante elemento do festival, parte mais underground da cerimônia, é a Off Flip, evento paralelo e complementar à Festa Literária, que propõe a reunião de escritores em saraus e mesas de debate, com entrada franca para o público. Foi no decorrer deste evento alternativo que nasceu a Selo Off Flip, editora dirigida pelo escritor Ovídio Poli Junior, que conta com um catálogo de mais de cinquenta títulos publicados, tanto de autores estreantes quanto de escritores com trajetórias muito bem estabelecidas.

É neste contexto que, desde 2006, a editora vem promovendo o Prêmio Off  Flip de Literatura, que está atualmente na sua 17ª edição. A premiação tem o intuito de incentivar a produção literária na língua portuguesa, e qualquer um pode participar do concurso se inscrevendo pelo site. São três as categorias literárias contempladas: poesia, crônica e conto. Finalizadas as inscrições, que chegam de todos os cantos do Brasil, os respectivos textos são avaliados e aqueles escritores selecionados, vencedores e finalistas são publicados em coletâneas colaborativas (uma para cada gênero), que exibem uma rica variedade de temas, estilos e formas.

Apesar de paralelo à FLIP, o Prêmio OFF FLIP de literatura já tem tradição, assim como a feira que o originou. A curadoria da premiação, indicada pela editora, é também cuidadosa e rigorosa, formada por especialistas em literatura e escritores de expressão no cenário literário brasileiro.

Em 2021, a escritora e roteirista Adriana Calabró, do Palavra em Movimento, ficou mais uma vez entre os finalistas selecionados da  premiação (já havia sido em 2013). Entre as centenas de escritores participantes da edição deste ano, seu conto, Carta-Vestido, integrou a coletânea do livro “Prêmio Off Flip 2021 – Contos”. De narrativa colorida, o conto nos coloca dentro da mente criativa de uma costureira que, tal qual uma escritora que escreve seu conto, costura e ensaia um vívido vestido.

O conto está disponibilizado abaixo, para que os nossos leitores possam também fazer suas costuras. Vida longa ao prêmio Off Flip, sua resistência e suas coletâneas que valorizam os talentos brasileiros da literatura.

CARTA-VESTIDO    

Adriana Calabró

Fiquei pensando que ela gostaria é de ter um vestido. Depois de tentativas de comunicação, de perguntas sem respostas, de palavras perdidas, decidi fazer a coisa certa. Na questão do tecido, não tive dúvidas em escolher a seda pura, que vem de um inseto enigmático que tece seu fio com paciência e interesse.  Para a cor, não caí na facilidade do amarelo, que sempre acendeu os seus olhos acastanhados, e optei pelo vermelho baixo, quase cor de vinho. A modelagem se ajustaria aos contornos bem definidos do corpo dela; o desenho faria com que os pedaços da pele funcionassem como adornos, não meras curiosidades. Fui em busca da tesoura, que nunca está na gaveta certa,  alinhei a cadeira de forma que meus cotovelos tivessem bom apoio, afastei os livros e comecei a cortar. Aprendi a costurar com minha mãe, vó, e bisavó alemãs, mas para fazer vestido bonito tive de desaprender tudo, como aquelas carreiras de tricô que a gente puxa porque não eram bem o que a gente queria. Nem sempre a tradição é o caminho. Elas faziam muito vestido trespassado, muita saia de veludo cotelê, muita blusa com laço. Já a minha caixa de costura tem a foto do Krishna na tampa, vai vendo. Lembrando que o Krishna é azul e, pelo menos na minha caixa, tem os olhos do mesmo tom dos dela. Quase varei a noite e, de manhã, vesti a manequim com a costura semipronta. Não ornou. Uma mulher careca, translúcida e estática com o vestido dela? Não. Tirei dali e de uma forma tão brusca que uma parte no ombro se descosturou. O sinal de que eu deveria redesenhar o decote. Ela tem um belo colo. Refiz o debrum da parte superior e coloquei a peça sobre minhas pernas para dar início ao bordado: rosas de miçangas sobre renda nhanduti. Eram peças irregulares que comprei em um brechó com a intuição de que seriam úteis um dia. Foram mesmo. Depois do sol sumido e do bordado pronto, eu mesma resolvi provar e percebi que tinha mais ou menos o corpo dela, a largura do ombro, a cintura, a ossatura. Os meus olhos não têm o mesmo tom, nem a pele, mas tudo bem, pois o vermelho baixo, quase cor de vinho, vai bem em humanos sortidos. Esse vestido, sem qualquer modéstia, ficou um deslumbre, coisa de Hollywood, talvez Bollywood, o que agradaria Krishna, talvez Salassiê.  O fato é que ficou pronto e quando o vi no espelho tive a certeza que ela vai gostar. Talvez até me responda a tempo. Como o vestido é uma espécie de comunicação, uma carta de intenções, uma honraria, um reconhecimento, uma retratação, uma reparação, eu tive de me superar no acabamento. Cada ponto foi um capricho só.

São Paulo – SP

Sobre Fúrias e Musas

Uma crônica é publicada em um perfil no Facebook. Narrada em primeira pessoa, a personagem principal escreve como uma amiga íntima, e conta, divertidamente, de como sua festa de aniversário foi estragada pela amada Golden Retriever, que subiu a mesa e abocanhou, silenciosamente, as 20 esfihas de carne folhada compradas para os convidados. A publicação acumula o belo número de 80 likes, além de divertidos comentários que clamam por mais histórias cotidianas, dão risadas honestas e questionam a saúde estomacal da cadela.

E assim nasce a ideia de um livro. A autora, Rosane Luz Buk, depois de quase 10 anos se definindo como “cronista de facebook”, resolveu juntar os pedaços literários, espalhados pelo seu perfil social, e publicar o primeiro livro: Sobre Fúrias e Musas, uma coletânea pessoal de crônicas e contos.

O livro, que segundo a autora pode ser definido como “contos de uma bipolar apaixonada”, traz crônicas em uma linguagem informal e despojada, e aquele que lê o livro se sente transportado a um café, frente a frente com a autora, que conta, sem tabus, os causos de sua vida. Paixão, rejeição, o envelhecimento da mulher moderna, casamento, suicídio e o enfrentamento diário da doença psiquiátrica são apenas alguns dos temas que recheiam o livro sobre a vida de Rosane que, aos 57 anos, se abre para o público sem escrúpulos, e oferece ao leitor a mirabolante história de sua vida, às vezes trágica, sempre cômica.

Paulistana, a autora é declaradamente “bipolar”, bandeira que exibe com orgulho, na crença de que os desequilibrados são sempre mais interessantes, e escondê-los no armário é uma invenção ardilosa da “normalidade”. Honesto e otimista, Sobre Fúrias e Musas pode levar o leitor, em uma mesma página, a gargalhadas altas e choros soluçantes, pois é difícil não se identificar com a narração das tristezas e belezas que a vida apresenta.

O Palavra em Movimento perguntou a autora sobre as emoções do lançamento, ao que ela respondeu bem ao seu estilo: “lançar um livro está sendo o grau máximo de exposição. Muito mais do que ficar pelada na rede. Deve ser bom, mas exige um equilíbrio emocional que a gente nem sempre acha que tem. Mas no fundo tem.”

O evento de lançamento acontecerá nesta próxima terça-feira, dia 14 de dezembro, a partir das 19:00 horas no Bar Balcão, que fica na Alameda Tiête, 150, e contará também com a exposição de aquarelas da talentosa ilustradora do livro, Camila Tannus. Os interessados podem adquirir o livro ali mesmo, além de conhecer a escritora in loco.  Até porque a crônica das esfihas que falei no começo e algumas outras não estão no livro. Então é melhor que ela conte ao vivo.

Vamos?

Ainda, exclusivamente para os nossos leitores do Palavra, disponibilizamos uma crônica que selecionamos, logo abaixo. Um gostinho de “quero mais”!

VIZINHAZINHA

Por Rosane Luz Buk em “Sobre Fúrias e Musas”


A vizinha ficou mordida porque eu, a ecochata de plantão, impedi parte
da poda da árvore. E também andei cantando “Pessoa Nefasta” no quintal. Mas isso é lá com o Gil. Sorry, vizinha, podar árvore sem autorização caracteriza um ato ilegal. Então, o filho da vizinha, médico, me assustou com o carro (que coisa feia, amedrontar uma senhora de adiantada idade).


Fui reclamar e a vizinha gritava na rua a plenos pulmões:

  • Ela é loooooooouuuuuucaaaaa.
  • Ela toma remédiooooooo.
  • Ela não é normal.
    Ao que respondi:
  • E você é burra. Ninguém é normal.
    Obrigada vizinha, você me deu munição. Gritando daquele jeito com
    certeza fez a vizinhança questionar: quem é mesmo que precisa de remédio

Entre as escolhas, ser Original

Um símbolo de resistência, uma editora que reúne literatura de qualidade, oferecendo uma edição primorosa para cada um de seus autores. Assim é a Laranja Original. A quinta edição da sua Revista de Literatura e Arte está especial e o lançamento reuniu uma turma boa para falar do que mais gosta: escritos, imagens e sentidos.

Capa da Revista de Literatura e ArteLaranja Original, 5a edição.

Com a organização de Filipe Moreau e edição de Germana Zanettini, Beto Furquim e do próprio Filipe, os textos e imagens da LO5 foram selecionados com a mesma delicadeza e profissionalismo das edições anteriores. Muita poesia, prosa e arte, tudo em um projeto gráfico sofisticado, assinado por Hanna Uesugi e Pedro Botton. Além da materialização da revista, em que todos que são “da casa” podem participar, é bonito de ver o respeito que essa pequena grande editora tem pelos autores e artistas, sempre incluindo novos talentos e buscando a troca de informações e de saberes. No lançamento, feito pelo Zoom, no dia 16 de julho, ficou provado que é um pessoal que gosta de boa conversa. Foram nada menos do que três horas de live, em que todos puderam falar da experiência de estar na revista e ler trechos, de textos próprios ou dos colegas. Sem contar a parte visual, claro, que também foi celebrada no evento. Para ilustrar esta matéria trouxemos uma pequena parcela dos artistas presentes na edição: Alex Ceverny (imagem acima e na home), Helena Barbagelata e Fernanda Bienhachewski.

Amarelinha, de Helena Barbagelata, uma das imagens que ilustram a LO5

Entre os poemas lidos no lançamento, está o intenso Mascavo, de Beto Furquim, que fala de uma forma corajosa e cortante de uma das máculas da nossa história, a escravidão. A poeta Deborah de Paula e Souza leu seu poema que versa sobre a pandemia (em todas as suas camadas). Cristiana Rodrigues, que também escreveu sobre o assunto, escolheu entoar o poema de Germana Zanettini que tem no título o indigesto número de mortos pela Covid. Edson Valente emocionou a audiência com seu Relicário, que fala de lembranças e memórias enquanto Furquim leu mais um, dessa vez de Beatriz di Giorgi, escolhendo aquele que trouxe, literalmente, um novo olhar para o evento (levemente estrábico e encantador).

Moon Mother de · Fernanda Bienhachewski

Jayme Serva falou de samba na forma de soneto, enquanto Lilian Escorel trouxe os acordes da música francesa para falar de amor, ambos muito afinados. Diana Junkes elegeu o “clariciano” A galinha para dar mostras do seu repertório, enquanto Mario Pirata, poeta para todas as idades, leu e foi lido pelos colegas e, trouxe bom humor ao lançamento mostrando, ao vivo e em cores, os tipos de laranja do sítio em que vive. Isso, sim, é poesia concreta! Jo de Souza, ao unir os universos da poesia e do inconsciente em seu trabalho, trouxe uma amostra de seus Devaneios. Paula Valéria Andrade já foi mais direta e reta em seu Vai Embora/Sai Fora, levantando as massas e Sergio Basbaum foi lacônico, mas intenso, em seus poemas visuais. E por falar nisso, entre os artistas plásticos, estiveram presentes Alex Ceverny, Gabriela Brioschi e também Marcos Garuti, que contou um pouco de seu processo criativo. Na edição ainda há espaço reservado para a fotografia e entre eles estão Gabriel Mayor, Ana Aly e Claus Lehman.

O anfitrião, Filipe Moreau, poeta, músico, incentivador das artes e cultura, mais uma vez revela o seu olhar preciso para coordenar a revista. Com seu jeito discreto e autêntico, dá um grande exemplo de como ser artista, realizar e criar potência sem perder a ternura.

A revista da Laranja Original (a recém lançada 5a edição e as demais) estão disponíveis para compra no site da editora. E atenção para promoção especial: comprando qualquer título da Laranja Original, você leva o primeiro número da revista gratuitamente!

A potência da abstração

Taciana Barros, ou simplesmente Tacci, chegou cheia de ideias. Contava de suas emoções e de como elas a arrebatavam. Engajava-se nas palavras, suas e dos outros. As questões se multiplicavam e a escrita se potencializava. Eis que de repente, no nosso laboratório de escrita Viscerall, surge esse texto. Intenso, como as verdades indigestas. Poético, como a terra escondida debaixo do asfalto.

Os homens de Picasso

Os primeiros raios de sol abriam cortinas de luz entre as copas que me abrigavam. Senti seu toque aveludado em meu rosto como uma mãe toca o rosto de seu filho dizendo bom dia. Espreguicei em minha cama móvel, dura, mas que me acolhe a cada noite fria. Não reclamo. Agradeço. Fui eu quem me coloquei nesta posição. Não por vontade própria, mas por consequência dos meus atos impensados. Antes de agradecer, eu era como eles. Exatamente igual. Usava todas as minhas artimanhas mundanas para me dar bem, para ser o oposto do que sou hoje. Vestia máscaras imperceptíveis a todos e a mim mesmo. Fazia parte do rebanho com cheiro de melaço, mas a carne dura. Há dez anos atrás era um executivo padrão: ambicioso e prepotente. Achava que sabia mais que todos ao meu redor, tinha tanta arrogância que me colocava na posição de Deus, do Supremo, do que sabe tudo e é onipresente…como me ceguei… Era jovem, tinha meus trinta e poucos anos, uma vida dentro dos padrões, trabalho, dinheiro, posses, mulheres e filhos. O poder me buscava a todo momento. A luxúria também. Na verdade, todos os sete me envolviam numa fumaça queimada de perversidade. Já fui a pessoa que hoje me trata da mesma maneira. Já fui… Quando me levanto do meu quarto de pedras portuguesas e paredes de chapisco encardido, ouço um rangido de trilho e sinto o cheiro mais agradável da manhã. Ela sai e vem em minha direção. Todos os dias. Com seus passos pesados, pés apontados em direções opostas, apoiados em sapatos macios e confortáveis que envolvem seus pés, como se fizessem parte de seu corpo, meias grossas, cobrindo suas pernas fortes, avental por cima da saia, corpo de mulher magoada, resiliente, que se abala, mas não se entrega. Sinto seu aroma de trigo. Ela estende seus braços e, ao mesmo tempo em que me dá a fonte de nutrição para o corpo, também acalenta a minha alma com um sorriso materno.

Nunca me olha nos olhos, abaixa-os para não ter que sentir as dores de quem é sensível. Agradeço e me sento na cadeira que construí de restos de bambu e palha caídos de um terreno abandonado e ali mesmo vou me sentindo parte do mundo novamente. Sou andarilho. Gosto de poder ver a realidade por vários ângulos, mas sempre volto a dormir no mesmo lugar. É lá que me sinto abrigado e seguro. A cada dia sinto o mundo congelando aos poucos, criando camadas sólidas, cobrindo a tez do rebanho, lentamente penetrando em suas carnes, amornando o sangue até dos corações mais quentes. A cada passo que dou, o rebanho muda de rumo. Eles fingem que não me enxergam. Entendo. Também já fui um deles. Hora de me nutrir novamente. Sinto onde posso pisar, mas, mesmo assim, todos me sentem e o tempo fica mais denso. Parece que estou atravessando o vácuo. Uma muralha vem em minha direção. Já não vejo mais nada. Breu. Sigo meu caminho com um sentimento de que este dia se porta como um menino raivoso, aquele que chuta seus pais, bate na cara e morde para demonstrar sua raiva incompreendida. Sigo andarilho, todas as entradas se tornam saídas pra mim. Descanso meus pés triturados em uma esquina. Ouço passos em minha direção, como se estivessem pregando martelos. Percebo um vulto harmônico, pernas finas envoltas em calças de alfaiataria, o corpo delineado em um suéter de marca. Conheço algumas. Já as consumi sem consciência. Sinto um aroma de jasmim. Levanto humildemente o resto da minha dignidade e vejo uma mão estendida com um pacote morno lindamente enlaçado com barbante e um cheiro de esperança flutua pelas minhas narinas. Percebo sua feição. Metade caridosa, metade julgadora. Abaixo meu rosto em sinal de agradecimento e humildade. Ouço um “Fica com Deus” e o som dos martelos no chão se distanciando. Enquanto trago a esperança pra dentro, um barulho vem chegando como aviso de perigo.

Um rangido constante vai ficando cada vez mais alto. Paro de me alimentar e levanto o rosto. Não tinha que levantar meu rosto naquele dia. Sentia que não era um bom sinal. Fui içado por um guindaste de ferro velho, um homem e uma mulher com a máscara da dureza estampada em suas faces, cobertas por chapéus de imposição. Me levam em direção ao abatedouro móvel. Olho de canto de olho para os lados e presencio a indiferença da maioria e a indignação dos poucos despertos. Uma mulher se aproxima e profere seu discurso de humanidade, mas de nada adianta. Como disse, são poucos os que vão em direção contrária ao abismo. Tento agradecer àquele olhar de compaixão. Tampam minha visão com seus corpos de concreto. Entro na jaula. Vejo uma criança que sentiu minha dor. Uma mãe que não. Ela tira a criança da minha direção. Vejo um senhor levantando sua bengala em direção àquelas estátuas de concreto, agradeço com o olhar. Ele me sorri um sorriso de tentativa frustrada. Vejo um jovem com vestes confortáveis conversando com as estátuas, tentando escavar com seu pincel a brita condensada e encontrar, lá dentro, o mineral puro, mas de nada adianta. Levanto o lado direito dos meus lábios em sinal de agradecimento. Que bom poder presenciar um fio de luz na obscuridão. Chego a um castelo de destroços, cheirando a necessidades primitivas. Um espaço para “abrigar” quem não tem “abrigo”. Vejo carcaças humanas se arrastando sem direção. Me fere os olhos da alma. Tentam me convencer a ficar como se fossem anjos. Vejo pessoas consumidas por seus demônios internos. Saio rapidamente, tentando me esquivar das carcaças e me equilibrar em minha fraqueza. Volto assustado, desesperançado, ao lugar onde me acolho. Já não me sinto mais seguro. Aquela luz da manhã já tinha ido embora levando toda a leveza de um momento feliz. A lua me fita. Os aromas já não mais existem. Agora são cheiros de frituras de óleos usados. Deito-me, fecho meus olhos e já não mais existo.

Taciana Barros

taças sóbrias para humanos idem

Sejamos sóbrios

por Adriana Calabró

O ano vem acabando, e sendo 2016, podemos até falar em estado terminal. Aí um título assim aparece na timeline e dá ainda mais raiva. Sóbrios? Mas se a saída mais imediata está justamente nas taças de vinho, champanhe, de conhaque, nos whiskies puros, sem gelo. Calma. Não se altere. Não é disso que estamos falando. O assunto aqui tem mais a ver com uma sobriedade diferentona. Tem a ver com falarmos menos de ceia de Natal e mais das fomes internas. Pensarmos menos em presentes, gifts e mimos e descobrir mais possibilidades de realmente despertar o entusiasmo de alguém. Olha, o que tem de mulher que trocaria um kit maquiagem por um beijo experimental borra-batom. O que tem de homem que trocaria a gravata por um abraço impossível, daqueles que os braços ficam meio sem jeito e as batidas do coração se encontram mais ou menos no mesmo lugar. E os velhinhos? Quantos não trocariam as meias elásticas por alguma pequena ousadia? Eu não garanto, mas tenho quase certeza que até aquele celular ou tênis cobiçado pelos moleques pode vir na forma de uma aventura. Sei lá, pedalar antes da ceia. E já que voltamos ao assunto da ceia, sejamos sóbrios. Que tal algo simples e na quantidade exata, que não precise guardar no tupperware depois? Que tal uma música com alguém desafinado tocando violão? Que tal uma conversa sobre porque Jesus, que nasceu nesse dia, deu um piti no templo? Ou porque ele transformou água em vinho quando estava faltando brinde nas bodas de Canaã? Com certeza ele queria que a gente fosse sóbrio. Que pensasse antes no outro. Que a gente enchesse muitas taças em vez de pensar só na nossa. Que todo mundo ficasse bêbado de alegria e não só alguns. Há também a sobriedade de não falar bobagem só porque quer aparecer pro primo fazendo piada machista, racista, elitista. Ou aquela de não precisar competir com ninguém falando de conquistas que não fizeram ninguém feliz (nem você mesmo). Tem também aquela atitude delicadamente sóbria de pensar que tem muito sofrimento no mundo e, por isso mesmo, você tem que evitar qualquer grama a mais de egoísmo. Por exemplo, acertar a porcaria do mictório lembrando que alguém é contratado para limpar. Já pensou? Uma lista de desejos para o novo ano? 1 – Pensar no faxineiro que limpa o mictório, 2 – pensar no carro que fica preso quando eu paro em fila dupla, 3 – pensar na pessoa que pisa no cocô do meu cachorro. São sete desejos, não é? Então podia ser mais uns dois envolvendo generosidade e mais dois envolvendo autoconsciência. Espera, mas tanta sobriedade assim é chato. Legal é o show do Roberto, é a musiquinha do “hoje é um novo dia…”, é a viagem para a praia ou mesmo os benditos fogos que deixam uma sujeirada danada na areia. Calma. Não se preocupe, a sobriedade diferentona não tem a ver com ser triste, nem devagar, nem monótono. Tem a ver com ser humano. Com o tempo humano, os desejos humanos, as emoções humanas. Quem já se inebriou com a presença de outra pessoa, quem já se embebedou de tesão, quem já ficou turbado e perplexo com as conquistas de um grupo agindo junto sabe do que eu estou falando. Por isso eu digo, nesse fim de ano, e em todas as outras datas, ser um ser humano sóbrio é a maior viagem.

Nutrição

Tem criança que come terra, outras, sabonete, eu tinha uma amiga que comia casquinha de parede. Dizem que é sinal de verme, isso de comer coisas estranhas. Não sei. Eu comia papel. Todos os meus blocos tinham uma pontinha faltando. Eu não sabia por que, era mais forte do que eu. Bastava abrir um caderno e começava o ritual, tirar a lasquinha, enfiar na boca. No estômago, a celulose encontrava o brigadeiro, o ovo cozido, a banana, um pouco de tristeza também, dor de palavras engolidas.

O tempo passou e eu comecei a colecionar papel de carta, em uma pasta de capa preta cheia de modelos, com envelope, sem envelope, com selinho complementar, com relevo. Os motivos, os mais variados, gato, barco, morango, estrela. Mas esses eu não comia. Eu os deixava descansar em um canto, feito pão fermentando. E a pasta engordava, crescia. Estranha relação, essa com o papel, e na casa de uma colega descobri o de parede. Um luxo, superfície tão bem vestida como a mãe dela, mas não me acolhia, como se não fosse feito para aquele propósito. Até se fosse para embrulhar uma casa para presente não seria daquele jeito, aliás, não seria aquela casa.

Depois, veio a aula de datilografia, e descobri os papéis destinados ao erro. Bem baratos, pardos, empilhados aos montes, vítimas em sacrifício para batermos neles com força. Asdfg Hjklm. Nunca consegui fazer os números sem olhar.  O dedo fino entrava no meio das teclas. Eu amassava rápido para a professora não ver. Papel duplamente torturado. Eram meados dos anos 80 e a escola chamava Ordem e Progresso. Imagina só, se eu dissesse para os meus sobrinhos que existia vida antes da tela. Não tão em ordem, mas até que começava algum progresso.

Estou falando tudo isso porque hoje eu acordei em um susto e descobri a resposta.  Voltei lá para o dia em que a professora reclamou da minha prova, não pela nota, mas porque os cantinhos estavam faltando. Claro. Eram os aperitivos. Os papeis comidos estavam preparando o caminho para o banquete. Hoje, eu como palavras, eu me farto delas, vou traçando o que vejo pela frente e preenchendo as centenas de folhas em branco um dia digeridas. Eu como palavras sem restrição, antes do almoço, depois do jantar, as minhas, as dos outros. Eu como até o que não deveria comer. E as mais saborosas, deixo para a sobremesa. Começo do canto para o meio e vou mastigando, bem devagar…

Jabazinhos de uma non-influencer

Eu não sou nativa digital. Aliás, nem a digital do indicador eu tenho, perdi ao longo de décadas escrevendo em teclados variados, incluindo máquinas de escrever.  Por conta disso, às vezes o caixa eletrônico nega meu próprio dinheiro, a portaria virtual do meu prédio não me deixa entrar. Parece que esses leitores contemporâneos fazem questão de reforçar meu DNA analógico. Influenciadora, também não sou, não. Até tenho seguidores queridos no Instagram, alguns amigos e colegas bacanas no Facebook, mas são só conversas “de post” (as antigas conversas “de bar”), não consigo influenciar unzinho sequer a fazer o que eu quero!

Sendo assim, assumindo minha irrelevância virtual, recorro ao jabá afetivo. Uma vez que esse site é meu, então aqui eu coloco tudo o que eu quero, sem qualquer expectativa. Meus serviços prediletos! E olha, juro que a deliberação foi só com o board do Palavra Criada (eu e eu mesma), não rolou nenhum “recebidos”, “unboxing”, nem nada parecido. Como não sou influenciadora, espero que os membros da minha lista também não fiquem chateados se o fato de estarem aqui  não render muitos like a mais.

Foi o que se pode arrumar para o momento. Meu amor incondicional!

Então vamos a ela, a lista:

  • RESTAURANTE N.Ó.I.S

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Gente, pensa em um lugar único. Eles conseguem misturar coisas improváveis e tudo fica delicioso. Abacaxi com cogumelo, Banana da terra com feijão vermelho, Abacate com pesto, nhoque com legumes e PANCs. São uns meninos super bacanas, com experiência de cozinha e um tempero maravilhoso. A sigla N.Ó.I.S é por causa dos seus lemas: Natural, Orgânico, Inclusivo e Sustentável. Como não amar? Outro dia pedi um bolo de cumaru com bananada e calda de chocolate que me levou aos céus (Depois voltei pra a faxina, mas tudo bem).

Jabazito contact: Edit – Nóis está momentaneamente desativado. Mas já deram notícias que em breve chegam com novidades.

  • VANESSA, A HEROÍNA

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Não é que eu seja totalmente sedentária, gosto de andar, dançar, mas para mim musculação sempre foi tortura, coisa de gente que tem uma quedinha pelo sadomasô. Mas eis que surge ela, a amazona Vanessa, que, não sei bem como, está me conduzindo por 19 meses de musculação EM PLENA PANDEMIA! Até agora não entendi como ela me faz, pela telinha do celular, transformar a sala de estar em ginásio (antes de comprar os pesos eu usava uma sacolinha com 2 quilos de arroz e 2 quilos de feijão pra fazer a remada alta!). Mas o fato é que está rolando. Enfim, Vanessa é “a mina”. E se meu braço voltou a ter formato de braço, é por conta dela.

Jabazito contact: @vmmoreira

  • HORTELÃ

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Brinquedo educativo todo mundo conhece. Mas alguém conhece lojista educativa? Uma mulher que inspira as pessoas a serem amáveis, divertidas, esperançosas? Bom, essa é a Patrícia, dona da Hortelã. Aí é assim: eu peço uma dica para dar de presente para o meu afilhado e o que ela faz? Manda a lista por whatsapp, com fotos e vídeos, explicando por que cada um é bacana para aquela idade. E na hora de entregar, faz uma embalagem customizada com um desenho meu e do meu afilhado. Ah, fala sério! O menino nem queria abrir o presente de tão lindo que ficou. Os pais também ficaram encantados.  Quando a dona da loja é fada, isso é fácil.

Jabazito contact: @hortela_brinquedos_educativos

  • FERNANDA

fernanda

Como já falei, sou mega low profile nas redes, mas como hoje em dia tudo acontece nelas, achei que precisava melhorar minha apresentação pessoal. Vídeos e tals. A Fernanda Sanches é atriz, palestrante, professora de expressão oral e colei nela para ver se eu perdia um pouco a vergonha  e melhorava meu jeito de lidar com a câmera. Bom, a conversa foi tão boa que, além de trabalhar minha expressão no vídeo, falamos de arte, de textos, de dramaturgia.  Ela tem clientes executivos também, e, com eles, fala de reuniões, de palestras, de apresentações de projeto. É versatilidade que chama? Enfim, seja pelo talento em dar aula, seja pela inteligência, ela entrou pro jabálist!

Jabazito contact: @aprendaafalarempublico

  • MANDARINA

mandarina

Sou vintage e o que gosto mesmo é de ler um bom livro. E a livraria Mandarina, que inaugurou no ano passado em uma rua de Pinheiros é minha fornecedora predileta. As donas, Daniela Amendola e Roberta Paixão  estão no turbo durante a quarentena para continuarem positivas e operantes.  Pelo preço de um iFood você pede livros incríveis pra alimentar a alma.

Jabazito contact: @livraria_mandarina

Quer mais dicas de uma non-influencer? Escreva nos comentários.

Músicas & Silêncios

Pode a escrita ser construída a partir de um olhar conjunto? Nós, aqui no Palavra Criada acreditamos que sim. Marília Alves de Carvalho e Silva inaugura a série, que continuará nas próximas semanas, de textos feitos individualmente, mas com o olhar entrelaçado de um grupo de mulheres potentes, participantes da primeira edição do workshop Viscerall. Bem-vindos a essa mescla de sons costurados com muita sensibilidade.

Ritmo da Música no Tempo do Silêncio

Um raio de você
Me acorda no desconhecido
Seu quarto sem cortina
As roupas amassadas na sala
Os livros perfeitamente organizados
Um contraste de nós

Nesse jogo de luz e sombra
A sobra da noite anterior
O vinho que nunca bebo até o fim
Adele cantando que
“atirou chamas na chuva”
Enquanto eu transbordo fogo
Você incendeia água

“Se eu te abraçar, você fica mais um pouco?”
O amanhecer força a claridade na retina
Na pele aguardo o enlace prometido
E logo me embriago com tua água lúcida

As taças, os toques, a penumbra do ontem
As roupas sociais, a distância na cama,
os raios de sombra
Eu usaria nossa paixão por Chico para responder
“Quero ficar no teu corpo feito tatuagem”

Mas agora toca no escuro da manhã que
“there’s a side to you that I never knew”
Por que sem cortinas no quarto?
E com tantas no sentir?

Marília Alves de Carvalho e Silva

O carro da pamonha que habita em mim saúda o carro da pamonha que habita em você.

Entre os desbravadores, estão os portugueses nas suas caravelas, os astronautas em suas engenhocas e ele, o destemido caminhão vindo do interior, marcando presença nas ruas do bairro paulistano.  Ultrapassando em número de vendas os restaurantes cool de portas fechadas, a voz que sai do megafone instalado no capô brada: pamonha, pamonha, pamonha. A gravação garante que é um tiozinho do interior, de bochechas rosadas e o “r” dançando no céu da boca. Mas quem se aventura a descer pra comprar, no débito ou crédito, se depara com um rapaz desinteressante, com fone de ouvido e tênis de marca, celular em uma mão, maquininha na outra, vendendo os produtos com um quê de industrializados. Quem poderá julgar? Fico pensando se não somos exatamente isso em nossas comunicações diárias. Carros da Pamonha. A gente vocifera, a gente anuncia nossas realidades como sendo as mais genuínas, as mais essenciais. Vendemos nosso discurso como se estivéssemos arrasando, mostrando a verdade de quem somos. Mas, não. A receita não é original e está distante das sutilezas que poderiam evocar . A gente apenas impõe nossa caixa de som, comunicando aos outros, com falsa intimidade, que chegamos. Que estamos na porta do prédio e a gritaria é para falar o quão bom é o produto que acho que sou. Nas redes sociais isso fica claro, e mais ainda nas mensagens de  voz do whatsapp , aquelas de uma via só. Temos medo do diálogo, então é melhor só falar, sem dar chance de interrupção ou contra-argumento. Se vier, será na próxima mensagem sonora, com tempo para gente se armar de novo. Temos medo das respostas ao vivo, sem playback. Somos pamonha, pamonha, pamonha.  Não vou dizer que lá na terra fértil que também nos habita, não exista, sim, um milharal com espigas gordinhas, colhidas pelo tal tio de bochechas rosadas, trabalhadas no tacho por uma senhora sabida. Quem sabe uma contadora de histórias? Existe, sim, temos essa conexão com o nosso maná primordial. Mas será que estamos dispostos?  Olha, carros de som são irritantes, foguetes fazem um barulhão dos infernos,  e caravelas, bem… já sabemos no que deu. Então vou tentar. Vou ver se dia desses eu compro um milho da fazenda, ralo devagar, preparo o purê, adiciono o que for preciso, açúcar, coco (sim, fica bom),transformo em creme, coloco às colheradas nas cascas do sabugo e amarro com barbante.  Depois cozinho e espero ficar pronto. É uma experiência. Vou ver se consigo fazer a pamonha no tempo da pamonha e oferecer para o povo aqui de casa, quase sem palavras. Coloco no prato e entrego. Depois, desço e ofereço outra ao porteiro (ele está farto do carro da pamonha). Com ele, talvez seja necessária um pequeno diálogo, “aceita uma?”, mas vou tentar falar bem baixo. Sem espalhafato. Puro creme do milho.

Adriana Calabró

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Primeiro livro da série Benjamin Ross reúne fantasia, mistério e ação

Por Lais Barros Martins

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Foram seis anos de trabalho até concluir as mais de 800 páginas de uma história que traz um novo olhar ao eterno embate entre Luz e Sombras. Escrito por Kalil & Basker, o livro de ficção Benjamin Ross e o Bracelete de Tonåring tem na trama espíritos, alquimia, mistério e muita fantasia. Primeiro livro da saga que deve ainda contar com quatro outros volumes, já em produção.

A história se passa em uma vila da Inglaterra dos anos 1980 e traz os personagens da família Ross (Richard, Jasper e sua esposa Emily), as misteriosas Arianna King e Elizabeht Tate, espíritos Aliados vindos de colônias distantes, que se reúnem na batalha final “quando alguns segredos da Profecia, ponto-chave da trama, virão à tona”, revelam os autores.

 

SOBRE OS AUTORES

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Nuria Basker

Pseudônimo de Adriana Calabró, jornalista, escritora e roteirista premiada nas áreas de comunicação (Best of Bates International, Clube de Criação) e literatura (Selo Puc/Unesco Melhores livros de 2017, ProAc – bolsa de literatura, Prêmio Off-Flip – finalista, Prêmio João de Barro – 1º lugar,  Prêmio Paulo Leminski – finalista, Prêmio Salão de Humor – finalista microconto) e cinema (Festival Nanometragem de Cinema – finalista). Idealizou e atua como facilitadora da Oficina de Escrita Palavra Criada, desenvolve projetos de Coaching de escrita para grupos e empresas. www.palavracriada.com.br @palavra-criada

José Eduardo Kalil

Também conhecido como ZEK, é administrador de empresas, cantor e escritor. Atualmente fazendo especialização em  música, em Los Angeles. Embora já use as palavras para suas composições musicais, Benjamin Ross e o Bracelete de Tonåring é seu primeiro projeto de romance literário. @ZEK_sounds

 

CRIANDO UNIVERSOS IMAGINÁRIOS

A parceria literária para criar um livro de ficção entre dois autores de gerações e estilos diferentes acabou se tornando uma saga na vida real. O jovem José Eduardo Kalil mostrou o projeto a Nuria Basker, pseudônimo da escritora Adriana Calabró, e foi prontamente acolhido por ela. “O Kalil é muito criativo e obstinado, além de escrever bem. Adorei a sinopse logo de cara. Quando ele me convidou para participar do projeto como coautora, eu vibrei”, diz Basker. O fato de ter em seu currículo livros de outros estilos não foi uma barreira para a premiada escritora. “Eu adoro inventar realidades, e aqui eu poderia até envolver pessoas mortas e uma linhagem de mulheres alquimistas. Como negar o desafio?”. Para Kalil, “a experiência de escrever com a Nuria – uma escritora que consegue mesclar muito bem a técnica e a subjetividade dos sentimentos que preenchem as entrelinhas – foi uma grande lição, que vou levar para o resto da vida.” Embora a editora Laranja Original se destaque pela publicação de poesia e outros gêneros literários, resolveu apostar na dupla: “Estamos mais acostumados a publicar poesia, crônicas e contos, mas resolvemos aproveitar esta oportunidade de oferecer uma saga cheia de mistério aos nossos leitores, na certeza de que se trata de um excelente trabalho”, diz o editor Filipe Moreau.

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SOBRE A EDITORA

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A editora Laranja Original destaca-se pela publicação de poesia, mas traz em seu catálogo outros gêneros de ficção literária, traduções, trabalhos jornalísticos, acadêmicos, de artes plásticas, música, ilustração, fotografia – e já são mais de 45 títulos publicados. Cada projeto recebe extrema dedicação, com o investimento em equipes competentes para trabalhar os originais e lançar materiais de qualidade, em forma e conteúdo.

 

Imprensa

Laís Barros Martins

lbm.laisbarrosmartins@gmail.com

(11) 96831.6356

 

Vida Game ganha o Selo Cátedra PUC/RJ- UNESCO

A SELEÇÃO CÁTEDRA 10 indica obras com valor literário, plástico e editorial, considerando temas e gêneros diversos, sem designação por categorias ou faixas etárias, mas atenta, sobretudo, à qualidade artística do diálogo texto/imagem, que torna o livro infantil e juvenil um artefato original indispensável para arte-educação.
Vida Game, de Adriana Calabró, com ilustração de Ângelo Abu, foi um dos contemplados. A editora é a Peirópolis, uma das mais representativas em livros infanto-juvenis.

Conexões

Por Adriana Calabró

Essa semana tive o celular furtado e peguei o do meu sobrinho: um aparelho-dinossauro da raça Obsolescencius Programmatus  e, portanto, sem qualquer chance de receber o Uber, o Waze ou afins. Só o Whatsapp, e ainda assim, travando o tempo todo. Tudo bem, eu ainda tinha o Facebook no computador. Ufa. Foi lá que eu pude ver o anúncio de uma peça de teatro, despontando na minha timeline. Sim, uma analógica e presencial apresentação dramatúrgica, feita em um palco de verdade, com poltronas, bilheteria, essas coisas …

O post dizia:  “Única apresentação. Com Clovys Torres”. Confesso que nem me preocupei com a sinopse, nem com o nome da peça e fui correndo para o link de compra. Porque da última vez que tinha visto esse ator em cena eu dei graças a todos os deuses do teatro por ele existir e fiquei impactada por semanas.  Clovys Torres, o cara.

Peguei o carro e agradeci por me lembrar de como se chegava naquela rua (sem Waze, lembra?). Agradeci também que o marido emprestou o carro porque o meu estava no conserto (sem Uber, lembra?).  No hall, encontrei uma amiga, conversei sobre teatro e arte, sem nem olhar o celular (Whats travando, lembra?) e entrei… Penetrei naquele ambiente mágico… escuro… poltronas  antigas… palco tradicional… pozinho fino sendo revelado pelo holofote que já iluminava o cenário.  A vida vintage. A vida como ela era.

Depois de passar pela cortina aveludada da porta, procurei meu lugar, sentei e não precisei esperar muito. Lá veio ele, o Clovys. Quer dizer, não só o Clovys, mas o universo que ele carrega dentro de si. Minutos antes eu tinha me lembrado do nome da peça, “Me dá tua mão”, e como se fosse um chamado, me preparei para obedecer, para ser conduzida.  Ele mesmo, sem qualquer cerimônia, anunciou que a peça ia começar e pediu para desligarem os celulares. (O meu, coitado, nem precisou, já estava fora de área.)

E tudo começou prosaicamente, como uma conversa.  Narrador e personagem aos poucos se apresentando ao público. Ambos personificados pelo mesmo corpo.  Depois veio a mulher do personagem, o pai, a mãe, a amante, os cachorros, os visitantes daquela casa imaginária… Todos trazidos à cena pelo mesmo corpo. Um corpo preparado, um corpo de ator.  A narrativa ia aos poucos se revelando, bem tecida, convidando os espectadores a entenderem a lógica daquele monólogo com tantas faces. E eles entendiam. E se deixavam levar pela mão, e riam, e choravam. Quer dizer, não sei se choravam, mas eu chorei.

Contar do enredo, ou seja, da história de um casal que se une de uma forma insólita, depois muda de região, constrói sua rotina, passa por tragédias familiares, envelhece junto, pode até ser um caminho para se falar da peça. Mas é pouco. Não é aí que está a essência do espetáculo. São os silêncios preenchidos, os movimentos bruscos, as sutilezas da dramaturgia, os objetos carregados de significação, os sons que dissolvem a quarta parede, são eles que fazem da apresentação uma experiência forte.  E não estou falando que a peça é experimental, ou distanciada de uma narrativa com começo, meio e fim. Ao contrário, o texto escrito por Clovys (sim, o cara) e dirigido (“desconstruído”) por Amir Haddad nos faz criar a imagem dos personagens,  imaginar a trajetória deles, as dores e alegrias diárias, as vivências tão leves ou dramáticas como a de qualquer outra pessoa.

Fiquei o tempo todo concentrada na história, mas confesso que no meio da peça minha mente viajante deu uma passadinha na Grécia antiga, para pensar no conceito de catarse. Porque se a minha face estava molhada e aquela dor no palco não era exatamente minha, por que eu estava sofrendo? Ou pelo quê? Pela dor do mundo? Pela dor que poderia ser minha? Sim, a catarse do teatro existe e é prima da empatia. Que loucura. Então sofrendo a dor que não reconheço em mim, por meio de personagens que não existem eu posso me descobrir humana?

É isso. Deu match!

Descobrir-se humano. Taí um aplicativo que veio embarcado nas pessoas, mas nem sempre está no modo ON, não é?  O teatro, aqui bem representado por “Me dá tua mão”, assim como a dança, os saraus, a música e outras performances ao vivo, são capazes de nos desautomatizar e trazer o que o mundo digital ainda não conseguiu: a energia, o suor, a presença do artista bem próximos a você.

Tão vintage e tão necessária, essa entrega energética (e catártica) sobrevive.  Nos palcos e nos corações de quem está interessado em se conectar com ela.

Imagem: Caio Eduardo Monteiro da Silva

A vida é um game? Fernando Fontes responde

Um menino tímido,  com uma imaginação mais do que fértil. Esse é o protagonista e narrador de Vida Game, novo livro da Adriana Calabró, idealizadora do site Palavra Criada. Fernando Fontes tem onze anos, faz doze durante a história, mas tem pensado muito nos treze, quando será tecnicamente um teen. O texto foi o vencedor do Concurso João de Barro, prestigiado prêmio oferecido pela cidade de Belo Horizonte, e tem o formato de um diário.

A autora, que teve formação em Publicidade e está se licenciando em Letras, já fez incursões no romance e no conto, e  estreia no gênero infanto-juvenil. “Ao observar os meus sobrinhos e as demais crianças que já conseguem entender sobre a sua própria maturidade, seus próprios limites, surgiu a vontade de dar voz a eles. Assim nasceu o Fernando Fontes, narrador do Vida Game”, diz Adriana que além de escritora é roteirista, dramaturga, publicitária e dá aulas de escrita criativa. Possui outras obras premiadas, como o conto Taciana, finalista no prêmio Off-Flip, o Projeto Marco Polo, vencedor da bolsa de criação literária do ProAc e o conto A lança e o dado, finalista no Prêmio Paulo Leminski.

As ilustrações são de Ângelo Abu, que vem diretamente de Minas Gerais para o dia do lançamento. ” O trabalho desse artista maravilhoso foi um presente. Ele recontou minha história por meio de imagens e fez um caderno de desenhos, separado do texto”, diz Adriana.

O Singularidades, instituição voltada à formação de professores, apoia a iniciativa e o lançamento será no dia 23 de outubro, segunda-feira, no vão central da Sede, na rua Deputado Lacerda Franco, 88, a partir das 19h30.