Da Flip para as nossas cabeceiras

Manuela Buk de Araujo

Se você é do tipo da pessoa ligada em literatura, cultura, história ou turismo, já deve ter ouvido falar da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP. Realizada anualmente no charmoso centro de Paraty, cidade histórica com ares rústicos e descontraídos, o evento é fundamental para a promoção da livre circulação de literatura. São cinco dias de festividades com mesas, debates, shows, oficinas, possibilitando, elegantemente, o encontro democrático entre leitores e escritores.

Um relevante elemento do festival, parte mais underground da cerimônia, é a Off Flip, evento paralelo e complementar à Festa Literária, que propõe a reunião de escritores em saraus e mesas de debate, com entrada franca para o público. Foi no decorrer deste evento alternativo que nasceu a Selo Off Flip, editora dirigida pelo escritor Ovídio Poli Junior, que conta com um catálogo de mais de cinquenta títulos publicados, tanto de autores estreantes quanto de escritores com trajetórias muito bem estabelecidas.

É neste contexto que, desde 2006, a editora vem promovendo o Prêmio Off  Flip de Literatura, que está atualmente na sua 17ª edição. A premiação tem o intuito de incentivar a produção literária na língua portuguesa, e qualquer um pode participar do concurso se inscrevendo pelo site. São três as categorias literárias contempladas: poesia, crônica e conto. Finalizadas as inscrições, que chegam de todos os cantos do Brasil, os respectivos textos são avaliados e aqueles escritores selecionados, vencedores e finalistas são publicados em coletâneas colaborativas (uma para cada gênero), que exibem uma rica variedade de temas, estilos e formas.

Apesar de paralelo à FLIP, o Prêmio OFF FLIP de literatura já tem tradição, assim como a feira que o originou. A curadoria da premiação, indicada pela editora, é também cuidadosa e rigorosa, formada por especialistas em literatura e escritores de expressão no cenário literário brasileiro.

Em 2021, a escritora e roteirista Adriana Calabró, do Palavra em Movimento, ficou mais uma vez entre os finalistas selecionados da  premiação (já havia sido em 2013). Entre as centenas de escritores participantes da edição deste ano, seu conto, Carta-Vestido, integrou a coletânea do livro “Prêmio Off Flip 2021 – Contos”. De narrativa colorida, o conto nos coloca dentro da mente criativa de uma costureira que, tal qual uma escritora que escreve seu conto, costura e ensaia um vívido vestido.

O conto está disponibilizado abaixo, para que os nossos leitores possam também fazer suas costuras. Vida longa ao prêmio Off Flip, sua resistência e suas coletâneas que valorizam os talentos brasileiros da literatura.

CARTA-VESTIDO    

Adriana Calabró

Fiquei pensando que ela gostaria é de ter um vestido. Depois de tentativas de comunicação, de perguntas sem respostas, de palavras perdidas, decidi fazer a coisa certa. Na questão do tecido, não tive dúvidas em escolher a seda pura, que vem de um inseto enigmático que tece seu fio com paciência e interesse.  Para a cor, não caí na facilidade do amarelo, que sempre acendeu os seus olhos acastanhados, e optei pelo vermelho baixo, quase cor de vinho. A modelagem se ajustaria aos contornos bem definidos do corpo dela; o desenho faria com que os pedaços da pele funcionassem como adornos, não meras curiosidades. Fui em busca da tesoura, que nunca está na gaveta certa,  alinhei a cadeira de forma que meus cotovelos tivessem bom apoio, afastei os livros e comecei a cortar. Aprendi a costurar com minha mãe, vó, e bisavó alemãs, mas para fazer vestido bonito tive de desaprender tudo, como aquelas carreiras de tricô que a gente puxa porque não eram bem o que a gente queria. Nem sempre a tradição é o caminho. Elas faziam muito vestido trespassado, muita saia de veludo cotelê, muita blusa com laço. Já a minha caixa de costura tem a foto do Krishna na tampa, vai vendo. Lembrando que o Krishna é azul e, pelo menos na minha caixa, tem os olhos do mesmo tom dos dela. Quase varei a noite e, de manhã, vesti a manequim com a costura semipronta. Não ornou. Uma mulher careca, translúcida e estática com o vestido dela? Não. Tirei dali e de uma forma tão brusca que uma parte no ombro se descosturou. O sinal de que eu deveria redesenhar o decote. Ela tem um belo colo. Refiz o debrum da parte superior e coloquei a peça sobre minhas pernas para dar início ao bordado: rosas de miçangas sobre renda nhanduti. Eram peças irregulares que comprei em um brechó com a intuição de que seriam úteis um dia. Foram mesmo. Depois do sol sumido e do bordado pronto, eu mesma resolvi provar e percebi que tinha mais ou menos o corpo dela, a largura do ombro, a cintura, a ossatura. Os meus olhos não têm o mesmo tom, nem a pele, mas tudo bem, pois o vermelho baixo, quase cor de vinho, vai bem em humanos sortidos. Esse vestido, sem qualquer modéstia, ficou um deslumbre, coisa de Hollywood, talvez Bollywood, o que agradaria Krishna, talvez Salassiê.  O fato é que ficou pronto e quando o vi no espelho tive a certeza que ela vai gostar. Talvez até me responda a tempo. Como o vestido é uma espécie de comunicação, uma carta de intenções, uma honraria, um reconhecimento, uma retratação, uma reparação, eu tive de me superar no acabamento. Cada ponto foi um capricho só.

São Paulo – SP

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