Precisamos falar de Lúcia Murat

Por Manuela Buk

O breve diálogo que inspirou esse texto:

  • Você sabe quem é a Lúcia Murat?
  • Não… Nunca ouvi falar.
  • É uma cineasta brasileira, dá uma olhada nela. Ela está sendo homenageada agora, no festival Cabíria de cinema
  • Entendi, vou dar uma olhada. Engraçado, pensando agora, acho que eu não consigo lembrar de nenhuma diretora brasileira que eu conheça de nome. Preciso resolver isso.

Lúcia Murat. Coragem atrás das câmeras.

            A cineasta brasileira, filha de um médico ligado à saúde pública, nasceu no Rio de Janeiro, em 1948, e iniciou a sua jornada dentro do movimento político estudantil quando entrou na faculdade de economia, em 1967, um ano antes da edição do Ato Institucional 5 (AI-5), que decretou a suspensão dos direitos políticos dos cidadãos considerados “subversivos”. Tal ato é compreendido como o evento institucional que possibilitou ao regime ditatorial perpetuar a opressão e práticas extremamente violentas.

Participante ativa da União Nacional dos Estudantes (UNE), defensora de valores democráticos, Lúcia estava incluída naqueles considerados pelo governo como “subversivos”. Entrou na clandestinidade,  integrou o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e aos 22 anos de idade foi presa e levada ao DOI-Codi, na rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro. As atrocidades cometidas nos porões do DOI-Codi, marcaram não só a vida de Lúcia, mas deixaram uma mancha sangrenta na história do Brasil. Os crimes, assassinatos e torturas que ali aconteceram, só viriam à luz da sociedade vinte anos depois num movimento realizado pela Comissão Nacional da Verdade, colegiado que buscou investigar as graves violações de direitos humanos ocorridas na ditadura militar.

            Lúcia saiu do cárcere em 1974 e até ser anistiada, foi processada pelo Estado Brasileiro por suas atividades como militante. Passou então a escrever artigos para periódicos como o Jornal do Brasil e as revistas Opinião e Movimento. Nesses anos, também foi editora-chefe do jornal da manchete e diretora de programas de documentários para a TV Educativa e Bandeirantes.

No final da década de 80, com a retomada democrática, lançou o seu primeiro longa-metragem, o documentário Que bom te ver viva (1989) que intercala depoimentos de ex-presas políticas da ditadura com monólogos da atriz Irene Ravache, e aborda, irreverentemente, o tema da tortura sexual. Por vezes, a personagem de Irene Ravache encara a câmera e se dirige ao espectador de maneira honesta e aberta, causando  o desconforto e a vergonha causada pela mácula explícita da tortura.

Ao atuar como diretora, produtora e roteirista, Lúcia Murat revisita os porões da dor e faz da denúncia  uma forma primordial de justiça e resistência. Entre muitos prêmios, o longa foi escolhido melhor filme do Júri Oficial, do Júri Popular e da Crítica no Festival de Brasília de 1989, e revelou uma cineasta dedicada a temas políticos e femininos, característica fundamental de muitos de seus trabalhos.

            Entre os mais recentes, o longa Ana.Sem título foi recém-lançado,em 2020 que, assim como outros títulos da autora, está em exibição no festival Cabíria de Cinema que,neste ano, homenageia a premiada cineasta.

Muito prazer, Lúcia.

            Após fazer essa pesquisa sobre a cineasta, resolvi assistir o longa-metragem, aqui já caracterizado, o documentário “Que bom te ver viva”. Curiosamente, meu primeiro pensamento frente ao filme disponibilizado no Youtube foi: “Bem, um filme de 1989, será que não está um pouco ultrapassado?”. Na era pós-moderna, caracterizada pela informação desenfreada e o culto a imagem, tudo o que é antigo causa alguma resistência, e aquilo que oferece um conteúdo passivo, curto e leve é enaltecido. Este pensamento que tive, apesar de infeliz, não foi ingênuo, mas sim característico e revelador do tipo da geração que integro. Felizmente, afastei tal bobagem e embarquei na experiência cinematográfica. Encantei-me pela montagem e pelo roteiro do longa, que, como já indicado mais acima, apresentava diálogos e reflexões extremamente relevantes e emocionantes.

            Então me questionei: ora, como eu ainda não conhecia Lúcia Murat? Liguei para minha mãe, que também não a conhecia, questionei alguns amigos inteligentes (que também não faziam ideia) e, tristemente, também ouvi uma negativa de meu irmão e de uma grande amiga, ambos formados em audiovisual. Não, ninguém conhecia Lúcia Murat assim de nome. Foi decepcionante descobrir que tal ignorância não era só minha.

            Com longas-metragens internacionalmente conhecidos e premiados, participações importantes na memória da ditadura, habilidades ímpares de roteiro e produção cinematográfica, porque desconhecemos o nome dessa mulher tão importante para o cinema e para a nossa história?

Pensando com mais profundidade, uma ex-militante da luta armada, que depôs e expôs as torturas que sofreu pelo Estado Brasileiro, produtora e reconhecida na árdua área do cinema brasileiro, que até hoje luta pelo direito das minorias, deve ser uma personalidade que incomoda muita gente que se acomoda. Em um contexto em que o presidente eleito já elevou em rede nacional um dos maiores nomes da tortura, o coronel Ustra, não me parece que seja interessante para o sistema que falemos dela.

            Talvez, se sua palavra se espalhasse, mais mulheres se sentiriam inspiradas a adentrar o cinema e compartilhar suas histórias e visões. Talvez, se seus filmes se propagassem, menos pessoas ficariam inclinadas a qualquer saudosismo dos tempos do regime militar. Talvez, a liberdade democrática e a liberdade de expressão seriam mais valorizadas. Talvez.

            Hoje, é inegável que nosso país passa por tempos obscuros, onde cresce a morte, a doença, o desemprego, a fome e a miséria. Fazer, no presente, uma resistência à ideologia que desrespeita abertamente os direitos humanos, também é retornar ao passado, para ensaiar um futuro em que não repitamos os mesmos erros, as mesmas dores, as mesmas passividades.

            Um país sem memória também é um país sem futuro. Falar de Lúcia Murat, consumir seu trabalho, homenagear sua contribuição para a cultura e a justiça no país, é um passo importante em um processo que ainda é fraco no país: aprender com a história, priorizar a memória. O Festival Cabíria teve essa atitude.

“Em reconhecimento à sua notável contribuição para o cinema brasileiro, o Cabíria Festival celebra as quase quatro décadas de carreira de Lucia Murat. Uma homenagem aos seus filmes brilhantes e à cineasta — inspiração de várias gerações de mulheres do audiovisual.(…). Não pela fetichização do heroísmo dos militantes, nem da violência com a qual os opositores ao sistema opressor eram tratados, mas por sua capacidade cinematográfica de honrar memórias, promover denúncias e renovar pontos de vista da história, um convite ao senso crítico.”

Este trecho foi retirado da página do Festival, do evento que aconteceu na segunda semana de outubro deste ano (ver link abaixo).

Viva Lúcia Murat!

Links relevantes:

O longa metragem “Que Bom te ver viva”, disponível no youtube:

A página oficial do Festival Cabíria, onde o usuário pode encontrar a programação de 2021 e os links oficiais

https://cabiria.com.br/festival/mostra-homenagem/

O depoimento de Lúcia Murat na comissão da verdade:

O atual presidente Jair Bolsonaro homenageando o General torturador Ustra, na votação do impeachment de 2016 da presidente Dilma Rousseff:

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