Sobre Fúrias e Musas

Uma crônica é publicada em um perfil no Facebook. Narrada em primeira pessoa, a personagem principal escreve como uma amiga íntima, e conta, divertidamente, de como sua festa de aniversário foi estragada pela amada Golden Retriever, que subiu a mesa e abocanhou, silenciosamente, as 20 esfihas de carne folhada compradas para os convidados. A publicação acumula o belo número de 80 likes, além de divertidos comentários que clamam por mais histórias cotidianas, dão risadas honestas e questionam a saúde estomacal da cadela.

E assim nasce a ideia de um livro. A autora, Rosane Luz Buk, depois de quase 10 anos se definindo como “cronista de facebook”, resolveu juntar os pedaços literários, espalhados pelo seu perfil social, e publicar o primeiro livro: Sobre Fúrias e Musas, uma coletânea pessoal de crônicas e contos.

O livro, que segundo a autora pode ser definido como “contos de uma bipolar apaixonada”, traz crônicas em uma linguagem informal e despojada, e aquele que lê o livro se sente transportado a um café, frente a frente com a autora, que conta, sem tabus, os causos de sua vida. Paixão, rejeição, o envelhecimento da mulher moderna, casamento, suicídio e o enfrentamento diário da doença psiquiátrica são apenas alguns dos temas que recheiam o livro sobre a vida de Rosane que, aos 57 anos, se abre para o público sem escrúpulos, e oferece ao leitor a mirabolante história de sua vida, às vezes trágica, sempre cômica.

Paulistana, a autora é declaradamente “bipolar”, bandeira que exibe com orgulho, na crença de que os desequilibrados são sempre mais interessantes, e escondê-los no armário é uma invenção ardilosa da “normalidade”. Honesto e otimista, Sobre Fúrias e Musas pode levar o leitor, em uma mesma página, a gargalhadas altas e choros soluçantes, pois é difícil não se identificar com a narração das tristezas e belezas que a vida apresenta.

O Palavra em Movimento perguntou a autora sobre as emoções do lançamento, ao que ela respondeu bem ao seu estilo: “lançar um livro está sendo o grau máximo de exposição. Muito mais do que ficar pelada na rede. Deve ser bom, mas exige um equilíbrio emocional que a gente nem sempre acha que tem. Mas no fundo tem.”

O evento de lançamento acontecerá nesta próxima terça-feira, dia 14 de dezembro, a partir das 19:00 horas no Bar Balcão, que fica na Alameda Tiête, 150, e contará também com a exposição de aquarelas da talentosa ilustradora do livro, Camila Tannus. Os interessados podem adquirir o livro ali mesmo, além de conhecer a escritora in loco.  Até porque a crônica das esfihas que falei no começo e algumas outras não estão no livro. Então é melhor que ela conte ao vivo.

Vamos?

Ainda, exclusivamente para os nossos leitores do Palavra, disponibilizamos uma crônica que selecionamos, logo abaixo. Um gostinho de “quero mais”!

VIZINHAZINHA

Por Rosane Luz Buk em “Sobre Fúrias e Musas”


A vizinha ficou mordida porque eu, a ecochata de plantão, impedi parte
da poda da árvore. E também andei cantando “Pessoa Nefasta” no quintal. Mas isso é lá com o Gil. Sorry, vizinha, podar árvore sem autorização caracteriza um ato ilegal. Então, o filho da vizinha, médico, me assustou com o carro (que coisa feia, amedrontar uma senhora de adiantada idade).


Fui reclamar e a vizinha gritava na rua a plenos pulmões:

  • Ela é loooooooouuuuuucaaaaa.
  • Ela toma remédiooooooo.
  • Ela não é normal.
    Ao que respondi:
  • E você é burra. Ninguém é normal.
    Obrigada vizinha, você me deu munição. Gritando daquele jeito com
    certeza fez a vizinhança questionar: quem é mesmo que precisa de remédio

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